Café decolonial fortalece pequenos negócios locais na Bahia

Servir um café decolonial foi a forma que a Embaixada Preta Cachoeira, na Bahia, encontrou para transformar cada refeição em uma experiência de conexão com o território, a cultura e a memória.

Cada ingrediente do café da manhã vem de comunidades quilombolas e da agricultura familiar locais, conectando quem come às histórias, memórias e modos de vida da região.

Nesta entrevista, conversamos com Láiza Mello, produtora executiva da Embaixada Preta Cachoeira, para entender como o projeto une gastronomia, ancestralidade e desenvolvimento.

A seguir, descubra mais sobre essa iniciativa inspiradora e conheça estratégias que podem ser aplicadas no seu empreendimento.

Café decolonial: o que é e qual o seu impacto

A Embaixada Preta Cachoeira oferece hospedagem e café decolonial

Academia Assaí: O conceito de café decolonial desperta muita curiosidade. O que exatamente significa oferecer uma experiência gastronômica decolonial dentro da Embaixada Preta Cachoeira?

Láiza: Para nós, um café decolonial é uma experiência que reconhece e valoriza os conhecimentos, práticas e tradições alimentares historicamente construídas por povos negros, indígenas e comunidades tradicionais. Mais do que servir alimentos, buscamos contar histórias, fortalecer identidades e promover uma relação consciente com o território. É um convite para que as pessoas experimentem sabores que carregam memórias, trajetórias e modos de vida muitas vezes invisibilizados pelos modelos hegemônicos de consumo.

Academia Assaí: O café da manhã valoriza ingredientes vindos de quilombos e da agricultura familiar da região. Como essa escolha impacta não apenas o sabor, mas também a economia local e a preservação de saberes ancestrais?

Láiza: Essa escolha fortalece circuitos econômicos locais e contribui diretamente para a geração de renda de agricultores familiares, marisqueiras, cozinheiras tradicionais e comunidades quilombolas do Recôncavo. Ao mesmo tempo, ajuda a manter vivas  técnicas de cultivo, formas de preparo e conhecimentos transmitidos entre gerações. O resultado é uma alimentação mais diversa, saudável e conectada com a realidade do território.

Identidade e memória afetiva no cardápio

Academia Assaí: Como vocês transformam ingredientes locais em diferencial de marca e experiência para o público?

Láiza: Nosso diferencial está justamente na autenticidade. Trabalhamos com ingredientes que fazem parte da cultura alimentar do Recôncavo e buscamos apresentar suas histórias, origens e significados. O público não encontra apenas um produto, mas uma experiência que conecta gastronomia, memória, patrimônio cultural e pertencimento territorial.

Academia Assaí: Existe algum ingrediente, receita ou preparo servido no café que represente especialmente a memória afetiva e cultural do Recôncavo Baiano?

Láiza: Diversos preparos cumprem esse papel, mas podemos destacar alimentos derivados da mandioca, como beijus e bolos tradicionais, além de preparações à base de coco, frutas da região e receitas transmitidas pelas famílias e comunidades tradicionais. São sabores que remetem às cozinhas das avós, às festas comunitárias e às vivências cotidianas do Recôncavo.

Ancestralidade sem banalização e redes de produtores

Academia Assaí: Na prática, como a Embaixada Preta comunica a história por trás dos alimentos sem transformar ancestralidade em “tendência vazia”?

Láiza: Acreditamos que ancestralidade não é estética, é vivência. Por isso, buscamos construir relações reais com os sujeitos que produzem esses saberes, valorizando suas narrativas e protagonismo. Comunicamos os alimentos a partir de seus contextos históricos, culturais e sociais, sempre reconhecendo as pessoas e comunidades responsáveis por mantê-los vivos.

Academia Assaí: Trabalhar com pequenos produtores e comunidades quilombolas exige construção de rede e relacionamento. Quais foram os principais desafios e aprendizados nesse processo?

Láiza: O principal desafio é romper com lógicas de mercado que priorizam volume e padronização em detrimento das relações humanas. Aprendemos que construir confiança exige tempo, escuta e respeito aos ciclos produtivos e às especificidades de cada comunidade. O maior aprendizado é que fortalecer redes locais gera impactos econômicos, sociais e culturais muito mais amplos do que uma simples relação comercial.

Gastronomia afro-brasileira: mais que apenas comida

Academia Assaí: A gastronomia afro-brasileira muitas vezes ainda é pouco reconhecida como patrimônio sofisticado e inovador. Como vocês enxergam o papel do café decolonial na valorização dessa narrativa?

Láiza: Entendemos o café decolonial como uma ferramenta de valorização da gastronomia afro-brasileira enquanto patrimônio cultural vivo. Existe sofisticação nos conhecimentos tradicionais, nas técnicas culinárias, na diversidade de ingredientes e na capacidade de reinvenção dessas cozinhas. Nosso papel é contribuir para que essas narrativas sejam reconhecidas, respeitadas e valorizadas em sua potência econômica, cultural e criativa.

Academia Assaí: Para pequenos negócios da alimentação, quais ações simples podem ajudar a incorporar mais identidade territorial, ingredientes regionais e valorização cultural ao cardápio?

Láiza: O primeiro passo é conhecer o próprio território: seus ingredientes, produtores, histórias e tradições culinárias. Pequenas ações, como adquirir insumos da agricultura familiar, destacar a origem dos produtos, valorizar receitas locais e estabelecer parcerias com produtores da região já fortalecem significativamente a identidade do negócio e criam conexões mais autênticas com o público.

Academia Assaí: A experiência da Embaixada vai além da comida e envolve acolhimento, história e conexão com o território. Como vocês pensam a construção dessa experiência completa para quem visita o espaço?

Láiza: A Embaixada Preta foi concebida como um espaço de encontro, memória e pertencimento. Buscamos que cada visitante compreenda que está entrando em um território carregado de histórias, tradições e expressões culturais. A gastronomia é uma das portas de entrada para essa experiência, que também envolve música, literatura, artes, conversas e a valorização dos sujeitos que constroem a identidade cultural do Recôncavo Baiano. Nosso objetivo é que as pessoas saiam não apenas alimentadas, mas também tocadas pelas histórias e saberes que compõem esse território.

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